Imagem: Divulgação
Os resultados das eleições escancararam um Brasil polarizado, em que o centro ficou com pouco espaço nas disputas.
No cenário nacional, Lula e Flávio Bolsonaro concentraram mais de 90% dos votos válidos. As demais candidaturas ficaram longe de ameaçar os dois, mostrando que a alternativa à polarização não conseguiu convencer o eleitor a mudar de caminho.
O centro existe, ocupa governos, mantém bancadas e participa das principais alianças. Mas essa presença não se transformou em uma candidatura capaz de disputar a Presidência com força. Ter estrutura partidária e lideranças conhecidas já não basta para conquistar um eleitorado dividido entre dois polos.
Em Santa Catarina, o resultado acrescenta outra camada a essa discussão. O avanço do PL e a consolidação do bolsonarismo atingiram principalmente os partidos tradicionais que, durante décadas, comandaram a política estadual. MDB, PSD, Progressistas e União Brasil têm motivos para avaliar o tamanho do espaço perdido.
Já a esquerda, apresentada como o grande adversário do bolsonarismo, acredite, ampliou sua representação. O PT ganhou uma cadeira na Assembleia Legislativa, enquanto o PSOL manteve Marquito. Na Câmara dos Deputados, o campo também ganhou presença, com a eleição de Giovanna Mondardo (PCdoB), além do crescimento das votações de lideranças petistas. Gelson Merisio (PSB) terminou a disputa pelo governo em segundo lugar, talvez com surpresa já que, João Rodrigues (PSD) tinha se apresentado como adversário à altura de Jorginho Mello (PL).
E oque falar de Esperidião Amin (PP), que também não conseguiu se reeleger ao Senado, ficando em terceiro lugar, atrás de Carol de Toni e Carlos Bolsonaro, ambos do PL. Duas vezes governador de Santa Catarina, ex-prefeito de Florianópolis e ex-deputado federal, Amin é mais um exemplo de que uma longa trajetória política não garantiu a renovação do mandato.
O PL continua sendo a força dominante no Estado. Enquanto a esquerda preservou uma identidade reconhecida por seu eleitorado e conseguiu, mesmo que timidamente, avançar.
Já parte dos partidos tradicionais parece ter encontrado dificuldade para explicar qual espaço pretende ocupar e qual projeto oferece à população.
A lista de candidatos que ficaram sem uma cadeira ajuda a dimensionar essa mudança. Na disputa estadual, Gean Loureiro (União Brasil), não conseguiu se eleger, apesar da projeção conquistada como prefeito de Florianópolis.
Silvio Dreveck (PP), também ficou de fora. Ex-prefeito de São Bento do Sul por dois mandatos, ex-deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa, Dreveck carrega uma longa trajetória política e uma ligação histórica com o Planalto Norte.
Na eleição para deputado federal, dois ex-governadores não conquistaram vaga: Raimundo Colombo (PSD), e Carlos Moisés (União Brasil). São derrotas que chamam atenção pelo peso dos cargos que ambos ocuparam. Governar Santa Catarina garante conhecimento público, mas as urnas mostraram que esse capital político pode perder força.
Darci de Matos (Republicanos), também ficou sem uma cadeira. Com passagem pela Câmara de Vereadores de Joinville, pela Assembleia Legislativa e pela Câmara dos Deputados, representa outra trajetória consolidada que não encontrou votos suficientes para assegurar a eleição. Coronel Armando (PP), deputado federal entre 2019 e 2023, igualmente não conseguiu retornar.
Moisés e Armando acrescentam uma nuance à análise. Ambos foram eleitos pelo PSL em 2018, na eleição que levou Jair Bolsonaro à Presidência. Seus resultados mostram que o impulso daquele momento não se tornou uma garantia permanente de sucesso eleitoral. O espaço conquistado precisa ser sustentado, e a força do bolsonarismo está hoje concentrada no PL.
O PSDB oferece outro retrato desse encolhimento. Sem representação na próxima legislatura da Assembleia e com Marcos Vieira fora, o partido perde presença em um estado onde já teve participação relevante nas decisões políticas.
No PSD, Júlio Garcia e Clésio Salvaro aparecem como lideranças capazes de sustentar uma reorganização. Garcia conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados, enquanto Salvaro confirmou sua força regional ao se eleger deputado estadual. O desempenho dos dois preserva espaço para o partido, mas não elimina a necessidade de compreender as derrotas.
Seria simplificar demais atribuir cada resultado individual ao crescimento do PL. Eleições proporcionais também dependem da votação das siglas, da distribuição de cadeiras, das bases locais e das estratégias de campanha. Ainda assim, o conjunto dos resultados aponta para uma mudança que os partidos tradicionais não podem ignorar.
A aproximação com o bolsonarismo exige desses partidos uma reflexão: até que ponto a aliança ajuda a preservar suas bases e em que momento passa a fortalecer um concorrente que disputa os mesmos eleitores? Participar de um governo pode assegurar influência, mas não substitui a construção de uma identidade própria.
Jorginho Mello sai fortalecido desse cenário. Com 16 deputados estaduais eleitos pelo PL e apoio em outras legendas, o governador reúne condições favoráveis para conduzir sua agenda e influenciar a escolha da presidência da Assembleia Legislativa.
Uma bancada desse tamanho, porém, também exige articulação. Há lideranças, grupos e ambições que precisarão ser acomodados. Parte do trabalho político do governador será manter a unidade dentro do próprio campo que ajudou a eleger.
No país, o centro não conseguiu romper a concentração de votos na disputa presidencial. Em Santa Catarina, lideranças tradicionais descobriram que currículo e estrutura já não asseguram uma cadeira. Para esses partidos, a tarefa começa por responder ao eleitor uma pergunta concreta: o que têm a oferecer além de sua própria história?
Do outro lado do rio
E já que estamos na divisa com o Paraná, vale olhar também para o recado das urnas por lá. Sergio Moro (PL) conquistou o governo estadual no primeiro turno, com 50,10% dos votos válidos, enquanto Sandro Alex (PSD), candidato do atual governador Ratinho Júnior, ficou com 25,37%. Mais um resultado que reforça a força eleitoral do PL no Sul.
Os ex-governadores Beto Richa (PSDB) e Roberto Requião (PDT) também terminaram a eleição sem conquistar uma vaga.
Na disputa pelo Senado, Alexandre Curi (Republicanos), presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, não conseguiu se eleger. Curi assumiu o comando da Casa em 2025, para o biênio 2025/2026.
São trajetórias diferentes, mas que ajudam a compor um retrato: o peso de um sobrenome, a experiência no governo e o comando de uma instituição já não garantem o próximo mandato.
Também do outro lado da divisa, lideranças conhecidas terão de repensar seus caminhos.
0 Comentários
Fazer loginOs comentários são de responsabilidade de seus autores. Ao comentar, o usuário declara estar de acordo com nossa Política de Privacidade e Termos de Uso. Faça login para participar da discussão.
Faça login para participar da discussão sobre essa matéria.
Fazer login para comentar

